segunda-feira, 22 de julho de 2013

Amorzade

António Lobo Antunes, escreveu "Não me tinha passado pela cabeça que é exactamente o que sinto pelos meus amigos, os vivos e aqueles que morreram, ou antes, não morreram, só não puderam vir hoje, logo à noite ou amanhã telefonam e estarão no sítio em que combinámos, sem falta, e a gente a abraçar-se às palmadas nas costas. Porque razão os homens se abraçam sempre às palmadas nas costas?".
Até então desconhecia aquela expressão, mas desde o primeiro instante em que a li consegui perceber o seu significado. Nada podia ser tão transparente e tão bem descrito quanto aquilo que sentia por ti. Eras o meu companheiro de todas as horas, choravas todas as minhas lágrimas, navegavas comigo todos os oceanos, partilhavas todas as minhas mágoas, aninhavas-me naquele nosso abraço, parávamos o mundo ali, sorrias todos os sorrisos que ainda estavam para inventar em mim. 
Nunca houve um momento em que me desiludisses e penso que ainda está longe o dia em que isso possa acontecer, porque dizem que o Dia de São Nunca não vem nas próximas décadas. Até quando me pudeste deixar mais triste por algo, fiz questão de te dar na cabeça por isso. Talvez tenha errado contigo. Não uma, não duas, mas várias vezes. E por isso peço que me perdoes, porque preferia segurar todas as mágoas e dores deste mundo neste pobre e pequeno coração e perder todas as forças deste meu frágil corpo, a saber-te triste ou magoado, ainda mais comigo. 
Todos os bons sentimentos que existem no mundo, eu posso senti-los por ti. Estiveste comigo em todos os momentos bons e maus, tornaste-me uma pessoa melhor, fizeste de mim uma mulher mas perfeita em todas as minhas imperfeições, viste beleza em mim onde nunca fui capaz de a descortinar. 
Um "Amo-te" nunca se esquece e tenho todo o orgulho, prazer, contentamento, felicidade... e tudo o que é de bom, em que a primeira pessoa que mo dissesse fosses tu. Nenhum outro me tinha sabido como aquele. 
Por tudo isto e por muito mais, por aquilo que vivemos e por aquilo que ainda vamos viver, quero agradecer-te do fundo do meu coração a tua Amorzade, que é o melhor que eu tenho nesta vida. Sabes que és o melhor e aquilo que partilhamos vale para mim tudo o que há de melhor no mundo. Sei que estas palavras não chegam para agradecer tudo aquilo que fazes por mim e que sei que ainda farás, muito menos a tua amizade, mas tal como tu me mimas, quis deixar-te um miminho. 
Porque é que te amo? Porque és a minha melhor parte.









terça-feira, 26 de março de 2013

Procura-se um amigo



Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grande chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

"Mulheres são como maçãs em árvores.
As melhores estão no topo.
Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar.
Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão,
que não são boas como as do topo,
mas são fáceis de se conseguir.
Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas,
quando na verdade, eles estão errados...
Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar,
aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore."
Machado de Assis

sexta-feira, 24 de agosto de 2012


"A vida dói


-É a vida

Realmente, é verdade: é a vida. Às vezes muda sem nos pedir licença, sem nos avisar. Às vezes, aquilo que tinha tudo para correr bem, acaba por correr mal. Fazem-se escolhas. Vivem-se essas escolhas e depois

-É a vida

Ficamos admirados a contemplar a vida a atropelar-nos. Acabamos abraçados às paredes de queixo partido, de dentes partidos, de pernas partidas, de braços partidos, de coração partido. Acabamos. Desfeitos. Acabamos. E é nos finais que sentimos a vida no corpo. A despenhar-se na nossa direção a duzentos quilómetros por hora. É nessa hora, nesse preciso momento, que a sentimos nos ossos e nos músculos e nas veias. A vida dói. Vai passando por nós sem pedir licença. Levando o que amamos consigo.

-Vai.

Matando-nos devagarinho: centímetro a centímetro.

-Não queres que fique?

(Um olhar no vazio.)

-É por querer tanto que fiques, que te peço que vás.

O relógio da estação a teimar em parar o tempo. Cada segundo mais longo que o outro. Até o ar parecia parar, teimando em não entrar nas narinas, em não chegar aos pulmões.

-Mas eu quero ficar. Quero ficar contigo. Como é suposto ser feliz sozinha?

Ao ouvi-la os meus ossos a racharem lentamente. Cada palavra um murro no estômago. As pessoas a desviarem-se, ágeis,  ignorando o meu sofrimento. Os comboios chegavam e partiam sem que nada os fizesse parar: nem o relógio, nem as lágrimas, nem o meu corpo quase desfeito em pó de giz. Nada os fazia parar. Nada fazia parar a vida. E enquanto ela seguia o seu rumo atropelava-me uma e outra vez. Inconsciente do meu sofrimento, ou do sofrimento da Luísa. Ignorava-nos. Ignorava as lágrimas dela

-Nunca serei feliz sem ti

Ignorava as minhas dores.

-Então sê feliz por mim. Peço-te: sê feliz. Faz isso por mim.

-Esperas?

A mão dela tremia na minha. Sentia-a a apertar-me com as forças que lhe restavam. Os nossos dedos abraçavam-se eternamente. Sentia as unhas dela na minha carne. A marcarem-me uma última vez. Queria guardar na pele uma chaga que fosse que me lembrasse dela. Não queria encarar aquele momento como um final, ou um adeus. Queria que fosse só mais um entretanto. Que é aquilo que realmente somos: entretantos. Olhei-a nos olhos e limpei-lhe suavemente as lágrimas do rosto. A cara dela brilhava de tristeza e isso matava o que ainda restava de mim. A mão dela teimava em não largar a minha, com medo da falsa eternidade que sabia unir-nos. Engoli um trago de saliva e lágrimas. Olhei-a nos olhos, como se olha quem se ama, e respondi-lhe

-Por ti? Uma vida. E se existir outra continuarei a esperar.

Ainda me lembro daquele último sorriso de papel vegetal: leve, frágil, transparente. Sorri com ela e ajudei-a a subir para o comboio. Beijámo-nos ao som do sinal de partida e nesse momento senti-me como se fosse feito de pó, a espalhar-me pelo mundo: um braço aqui, um pulmão ali, o coração acolá. Sentia-me mutilado, partido, incompleto. O meu amor, o meu grande amor de oito anos, acabara de desaparecer atrás de uma vidraça, à velocidade de um alfa pendular. E eu corri para não a perder de vista. Corri sem condições de a alcançar.

(-É a vida)

Espero que realize todos os seus sonhos e um dia volte para me completar."

PedRodrigues

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Lado esquerdo



O meu lado esquerdo
é mais forte do que o outro
é o lado da intuição
É o lado onde mora o coração

O meu lado esquerdo
Oriente do meu instinto
É o lado que me guia no escuro
É o lado com que eu choro e com que eu sinto

Meu é o meu foi o meu lado esquerdo
Que me levou até ti
Quando eu já pensava
Que não existias para mim no mundo

O meu lado esquerdo não sabe o que é a razão
É ele que me faz sonhar
É ele que tantas vezes diz não

Meu é o meu foi o meu lado esquerdo
Que me levou até ti
Quando eu já pensava
Que não existias para mim no mundo

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

À Beleza


Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga, in 'Odes'